12/09/2012

CRÓNICA, 3

HÁ QUEM AGUENTE MAIS DEBAIXO DE ÁGUA MAS NUNCA PARA SEMPRE

Confesso que não gosto das queixas sobre a suposta falta de revolta dos portugueses. Nem das explicações avançadas. Suspeito que a queixa parte maioritariamente de quem também não se empenha na resistência. Essa é uma questão ética, reveladora de velhos esquemas de desigualdade social neste país: "eles", "o povo" ou "os outros" têm supostamente um problema que, bem cutucada a coisa, é o queixoso quem tem. Mas mais curioso é ver quais são as explicações avançadas. Há-as de dois tipos. Uma é culturalista, remetendo para velhas ideias de "caráter nacional" ou mesmo de "cultura", numa perspetiva supostamente antropológica mas que, na realidade, é apenas de senso comum (embora assente, é verdade, em velhas e ultrapassadas antropologias). A outra é, digamos, historicista, culpando um determinado período do passado pelos comportamentos e atitudes do presente. A primeira é a que fala da passividade, da submissão, dos bons costumes - a maior parte das vezes glosada comparativamente, como não podia deixar de ser, por exemplo recorrendo às metáforas do fado português versus o flamenco espanhol. A segunda é a que fala dos efeitos do salazarismo e dos hábitos de autocensura que teria instilado.

A hipótese que gostaria de colocar inverte os termos da questão. E se aqueles aspetos de "caráter nacional" fossem mais efeito do que causa? E se estes aspetos de "ditadura interiorizada" fossem também eles mais efeito do que causa? Não defendo isso, note-se, mas é bom para pensar. (E pensar é, eventualmente, bom para agir). Qual seria então a causa, nessa hipotética... hipótese? A profunda desigualdade social e a ausência de uma classe média sustentada no tempo. Veja-se quem tem saído à rua, quem se revolta alto e bom som noutros países afetados pela "crise": classes médias (incluíndo, já, os novos operariados "aburguesados"). São estas as camadas afetadas - de forma sentida como intolerável pelos próprios, note-se - pela perda de rendimentos, segurança, perspetivas e estado social. E essas camadas constituem a larga maioria dessas sociedades, e esse dado estatístico não é de todo descurável.

Pensando a contrapêlo, posso colocar a seguinte pergunta desafiadora: então e a Grécia? Classe média? Essa agora.... Ora bem, há dias alguém conhecedor da realidade local dizia-me que o Syriza é "o partido dos funcionários públicos". Acontece que o funcionalismo público conseguiu na Grécia duas coisas que não aconteceram com dimensão semelhante em Portugal: expandir-se enormemente e obter direitos e proveitos substanciais. Ou seja, haverá na Grécia uma classe média construída à custa de uma "canibalização" do estado que em Portugal é mais típica... das grandes empresas. Em Portugal o funcionalismo só recentemente conseguiu aspirar a ser classe média, e a maior parte das famílias está no limiar socio-económico da mesma e no limiar "histórico" - os pais, quando muito os avós, eram camponeses ou operários ou emigrantes pobres. A minha hipótese é que sem uma classe média estruturada e consolidada não há capital social e cultural para uma revolta do tipo da que desejamos e com a rapidez que desejamos.

Por fim, e como nota positiva, a capacidade de mobilização existe. Não esqueçamos o que foi a mobilização por Timor-Leste em 1999 (sobre a qual, e modéstia à parte, escrevi). Mas se pensarmos bem sobre as motivações profundas dessa mobilização, percebemos (é isso que digo no texto linkado) que ela foi de tipo patriótico, identitário, nacionalista mesmo, ainda que "por interposto povo". Ora, as mobilizações deste género são justamente as possíveis num contexto de desigualdade e precariedade como o nosso. As mobilizações por direitos, contra a austeridade, pela manutenção do nível de vida, não podem ser facilmente feitas pelos remediados. São mais fazíveis ou pelos desesperados ou pelos que ganharam (felizmente) uma visão do mundo com memória e perspetiva de bem-estar.

Posto isto, é impossível a revolta? Claro que não. A barbaridade das medidas de austeridade já afeta, agora, o frágil equilíbrio de bem-estar da larga maioria deste país de grandes desigualdades sociais e económicas. Já afeta até a vida difícil que tinham as pessoas que viviam no limiar da aspiração à classe média. Demorou foi tempo, e por isso mesmo. O tempo em que as pessoas hesitaram, acreditando no que lhes era dito sobre a bondade e necessidade das medidas, e temendo pela perda do pouco que tinham. Respirando fundo e aguentando debaixo de água. Em apneia. Agora a coisa já chegou ao nosso  - português - nível, o de um precário bem-estar sendo posto em causa. E como também a nossa democracia está a ser posta em causa  (não aderimos também em massa ao 25 de abril, esse outro exemplo de mobilização?), bem como a sobrevivência mesma do nosso país, a mobilização poderá também convocar o patriotismo acima referido.

Não há falta de auto-estima coisa nenhuma, nem fados nem salazares nas nossas cabeças. Deixemo-nos disso de uma vez por todas. Deixamos é que certos poderes nos estimem pouco, deixamos que nos alimentem com tretas sobre fados, deixamos que nos salazarenguem a cabeça. Até que explodimos para fora de água à procura de ar. Agora.


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